Usuário:

Senha:


Esqueci a Senha!    
Cadastrar-se    



8465368  visitas
Desde 15/10/1999
usuários on-line: 76

 

   O Primeiro Adeus

        Tente explicar a uma criança o que é ''nunca mais''. Use toda a criatividade, dê exemplos. Diga a ela que nunca mais verá o cachorrinho que tanto gostava. Ou que a vovó nunca mais vai voltar. É bem provável que ela afirme que entendeu tudo - e, ainda assim, continuem falando deles como se pudessem entrar pela porta a qualquer instante. Para os pequenos,essa estranha medida de tempo é incompreensível   enquanto não for vivida na pele dia após dia. Esse tem sido o aprendizado de Vittória, 4 anos, nos últimos dois anos, desde que o pai, o empresário paulista Ayrton Bruzetti, foi buscá-la na escola com a seguinte frase: ''Querida, olhe para mim. Mamãe morreu!''.Ele havia acabado de chegar do enterro da mulher, que falecera por complicações cardíacas uma semana depois de dar à luz a segunda filha, Isabella. ''Procurei falar a verdade, apesar de saber que, naquele momento para ela, nada fazia muito sentido'', conta Ayrton.

        A forma como a criança compreende e lida com a morte depende muito da idade e da maturidade. Em geral só por volta dos 9 anos ela começa a ter uma percepção mais completa do que isso significa: poderá entender que qualquer um está sujeito à morte, que ela é irreversível e independe da vontade das pessoas. ''Essa noção confusa, no entanto, não impede que sinta profundamente a dor da perda'', afirma a psicóloga Maria Helena Bromberg, de São Paulo. ''Crianças também ficam enlutadas, embora muitas vezes, expressem seu pesar de um jeito diferente'', diz.

        Na tentativa de proteger os filhos, ou por achar que a morte é um assunto que não faz (ou pelo menos não deveria fazer) parte do universo infantil, muitas famílias simplesmente os excluem no momento de luto.Afastam-nos da movimentação da casa, não falam do que está se passando e até evitam chorar na frente deles.

        Segundo os psicólogos, atitudes como essas podem ser prejudiciais por dois motivos. Primeiro, porque impedem que a criança assimile o que está acontecendo, aumentando a dificuldade para superar a dor da perda; segundo, porque só agravam a angústia, já que omitir a tristeza é uma tarefa que beira o impossível. ''Eu percebi que havia algo mais sério só de olhar para minha mãe'', conta Mariluz, 11 anos, que no final do ano passado recebeu pela primeira vez uma notícia de óbito: Raquel, a motorista da perua que a levava para a escola, muito querida pelas estudantes, havia falecido após um ataque cardíaco. Logo, que foi informada, a mãe, a pedagoga Maria Cecília Ricón, ficou sem saber como comunicar o falecimento à filha. Disse primeiro que Raquel havia sido internada. ''Acho que ela podia ter contado na mesma hora'', lembra Mariluz. ''Mas eu entendo por que  ela fez sso. É difícil de explicar mesmo.''

        Chorar faz bem

        O constrangimento diante da morte é uma atitude típica dos adultos

        O constrangimento diante da morte é uma atitude típica dos adultos - e especialmente da cultura ocidental moderna, que a afastou cada vez mais para o ambiente asséptico e impessoal das UTIs, longe do convívio familiar. Antigamente, morria-se em casa, velava-se o corpo em casa e os rituais fúnebres não eram abreviados, o que, de certo modo, tornava a morte mais natural, uma parte do ciclo da  vida, e menos difícil de assimilar. Hoje, viver o luto ficou tão complicado que já existem vários centros de apoio especializados no assunto. Um deles é o Laboratório de Estudos sobre o Luto (Lelu), da PUC de São Paulo, coordenado por Maria Helena. ''O objetivo do nosso trabalho é ajudar as pessoas a expressar a sua dor'', explica ela.

        Até por volta dos 7 anos, os pequenos fazem perguntas sobre a morte, mas dificilmente existe angústia em seu comportamento. ''Não há por que amenizar essa idéia para eles'', diz Maria Helena. '' A palavra correta é morrer e não se deve ter medo de pronunciá-la''. Usar eufemismos como ''papai está no céu'', ''vovô vai dormir para sempre'' ou ''Deus levou seu irmão'' só confunde as crianças, que costumam entendê-los de forma literal. Afinal, por que não pegar um avião para visitar o papai? Por que o vovô não acorda? Se eu me comportar, será que Deus traz meu irmão de volta? Rodrigo, 5 anos, queria saber como é o céu, e o que sua mãe falecida há um ano, tanto fazia por lá. ''Mas eu só vejo nuvens'', insistia com o pai, o gerente financeiro Paulo da Silva, de São Paulo. ''Ele perguntava pela mãe o tempo todo e, por um longo período, ficou revoltado'', conta Paulo. ''Aos poucos consegui explicar que a mãe não morreu porque quis e que ainda tínhamos um ao outro. Hoje estamos bem mais próximos.''

        ''Um avião caiu''

        Como não tem maturidade para entender a tristeza que sentem, as crianças expressam seu pesar de outras formas.É comum que depois de uma perda apareçam distúrbios de sono, xixi na cama, problemas na escola, hiperatividade, medos e até raiva da pessoa que se foi. ''Elas não choram o tempo todo e nem deixam de brincar'', diz a psicóloga Maria Júlia Kovács, da Universidade de São Paulo. ''Esse comportamento confunde os adultos, que nem sempre o interpretam como sinal de tristeza e acabam repreendendo a  criança, que, na verdade, pode precisar de ajuda.''

        Em 1996, Cássio tinha 5 anos quando recebeu uma estranha notícia. ''Um avião caiu hoje'', começou a mãe, a administradora Maria Guiomar Vieira. O pai do garoto, Carlos Vieira, foi uma das vítimas do acidente com o vôo 402 da TAM. ''Ele não chorou, mas ficou pálido'', lembra Guiomar. Nos meses seguintes, Cássio foi se tornando mais reservado e, algum tempo depois, passou a apresentar dificuldades na escola. ''Ele não demonstrava vontade de aprender a ler, dizia que não queria pensar. Ficava andando pelo colégio, sem interesse por nada.'' Cássio estava com depressão. ''Com a ajuda de psicólogos e da escola, consegui fazer com que falasse de suas aflições e superasse a dor'', conta.

        Embora nem sempre seja consciente, um sentimento de culpa costuma atingir as crianças que perdem alguém importante. Em uma pesquisa com meninos e meninas de 3 a 6 anos, a psicóloga Luciana Mazorra, da PUC de São Paulo, descobriu que todos se sentiam um pouco responsáveis pelo acontecimento. ''Nessa idade, os pequenos acreditam que são o centro do mundo e têm influências sobre as coisas à sua volta'', diz Luciana. ''Para eles, há lógica em achar que alguém morreu por causa de algo que disseram, fizeram ou até desejaram.''

        Falar claramente sobre a morte, se possível antes que ocorra na família, é uma das melhores formas de evitar essas fantasias, aconselham os especialistas. Crie oportunidades para que a criança faça perguntas e responda a todas com sinceridade. ''Pouco a pouco ela monta o quebra-cabeça'', afirma Luciana. Evite também tirá-la da própria casa ou alterar a rotina. ''A escola, os amigos e o ambiente familiar são apoios importantes, e mais uma mudança só vai piorar a situação'', explica. Incentive-a a expressar os sentimentos, preste atenção no que diz e, principalmente, não tenha medo de chorar na frente dela. ''Pais que escondem o sofrimento passam a mensagem de que o filho deve fazer o mesmo'', alerta a psicóloga. Mantenha fotos e outras lembranças da pessoa que morreu para estimular conversas sobre a morte com a criança.É por meio de sinais como esses que ela percebe a continuidade da vida - e descobre que o luto, por mais dolorido que seja, pode se revelar importante no processo de crescimento.

 

Aline Angeli

Revista Claudia

 

 






Envie este artigo para um amigo Imprimir este artigo Comentários









Voltar para a página anterior